domingo, 7 de junho de 2015
A prataria oitocentista portuguesa
A prataria oitocentista portuguesa, se bem que pouco inovadora “...encontra na produção de paliteiros uma vertente distinta, sociologicamente rica e esteticamente representativa do gosto de uma época, que se prolongou pelo século XX.” (5). A tendência eclética e de cariz saudosista do século romântico trouxeram para a ribalta os revivalismos estéticos como o gosto do neoclássico, a valorização do passado, o apego à Natureza, a busca do exótico, a valorização do Homem e a curiosidade científica.
Palitar os dentes é um hábito social cujas origens remontam à Pré-História quando o Homem, sentindo necessidade de tirar os restos de comida de entre os dentes, recorreu a objectos contundentes como lascas de pedra, de madeira, ossos e espinhos de animais. Vestígios arqueológicos desses objectos bem como sinais da sua ação nos dentes foram verificados em enterramentos datados desde a Idade da Pedra.
A cuidada higiene observada nas civilizações Grega e Romana contemplava o uso do palito. Este era um objecto de uso pessoal e continuado, aconselhando Plínio o Novo (61-113), como ideal, o espinho do porco-espinho. O Budismo também praticou desde sempre a higiene oral tendo assim alastrado o hábito no Oriente.
Na Idade Média, apesar dos poucos hábitos de higiene pessoal também está registado o uso de palitos em público – a garra de abetouro era um dos materiais – sendo porém a época do Renascimento que viu desenvolver esta prática. Em ambiente erudito, os palitos tornaram-se verdadeiras peças de joalharia sendo usados como adorno ao pescoço ou à cinta (1); o palito – normalmente em forma de garra - seria em ouro, prata, marfim ou osso, sendo por vezes protegido por uma bainha ricamente decorada com pedras preciosas, pérolas e esmaltes coloridos assumindo diferentes formas (2). Associados a estes objectos, surgem também estojos completos, com raspadores de línguas, uma espécie de colher para limpar os ouvidos e talheres e outros objectos de higiene como penicos e escarradores.
Os séculos XVI e XVII viram nascer as preocupações com a etiqueta tendo-se desde logo publicado manuais onde se aconselha a que o palitar de dentes à mesa seja feito com discrição. Na centúria seguinte a arte da mesa conheceu o seu apogeu; o uso do palito é generalizado e aceite à mesa tendo sofrido, como os outros hábitos, um processo evolutivo de adaptação e consolidação do manuseamento consoante cada país. O Padre Rafael Bluteau dizia no seu “Vocabulário Português e Latino” em 1720: “Palitar – Alimpar os dentes com palito. De quem depois da comida está conversando com o palito na mão, costumão dizer, Está palitando”(3).
Foi neste âmbito que se deu o aparecimento do paliteiro que conquistou também o seu lugar à mesa pelas suas funções utilitárias e decorativas. Surgiram em diversas formas e materiais, desde os mais nobres – prata e porcelana – até aos mais populares de faiança, madeira e cartão. Em Portugal, no final do século, regista-se o funcionamento em todo o país de pequenas fábricas de palitos de madeira que, por razões óbvias, vão conquistando o lugar dos individuais: “...os palitos metálicos (...) com grande escândalo da higiene (...) constante desinfecção (...) ofender o esmalte dos dentes (...) o início da cárie dentária.” (4). Ao longo do século XIX, diferentes compêndios de civilidade abordaram este hábito sendo unânimes que se tratava de falta de delicadeza conservar o palito na boca depois de comer, limpar com ele os ouvidos bem como pô-lo atrás da orelha ou no bolso da casaca. Diversos inventários de bens e relações de recheio de casas mencionam a existência de paliteiros traduzindo a adesão social a este hábito.
Paulatinamente o uso do palito à mesa foi desaparecendo mas o dos paliteiros sobreviveu – pela sua função decorativa - até se extinguir já no século XX, quando se tornam objectos de antiquariato e de colecionismo.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário